A terceira estimativa da CONAB para a safra 2018/19 surpreendeu por trazer algo que comentei na coluna do mês passado, a chance de batermos nosso recorde na produção de grãos ao atingirmos 238,41 milhões de toneladas, um crescimento de 4,6% sobre a safra anterior em uma área de quase 62,5 milhões de hectares, adicionando 760 mil hectares. Em soja, podemos colher, pelos números do USDA, cerca de 122 milhões de toneladas e exportar mais de 80 milhões (6% a mais que nesta safra). Já os EUA colherão 125,2 milhões e exportarão 11% a menos, cerca de 51,2 milhões de toneladas. A CONAB é um pouco mais conservadora, estimando produção de 120 milhões.

A Abiove estima 120,9 milhões de toneladas de soja, aumento de 1,5 milhão em relação à estimativa anterior. As exportações serão de US$ 34,2 bilhões, sendo que US$ 28,1 bilhões virão dos grãos. Porém, preocupa o calor excessivo destes dias, além da falta de chuvas neste momento, vamos observar a próxima estimativa e as produtividades que vêm sendo atingidas na soja colhida. Já temos relatos de muitas perdas no Paraná e em outros
estados.

No milho, são esperadas 91,1 milhões de toneladas, podendo exportar 29 milhões, 23,4% a mais que na safra 2017/18. Os EUA produzirão 371,5 milhões e venderão 62,2 milhões. O show, ainda segundo o USDA, virá do algodão, que deve colher 2,4 milhões de toneladas e exportar 1,3 milhão atingindo a segunda posição nas exportações, atrás apenas dos EUA, com 3,3 milhões de toneladas. Boa parte do nosso aumento de área plantada está no algodão.

Nova estimativa do Ministério da Agricultura para o valor bruto da produção (VBP) em 2019 traz R$ 584,6 bilhões, valor 1,9% maior que o deste ano, sendo R$ 200,9 bilhões para a produção animal (8% maior, sendo 2,7% para bovinos, 21% para frangos, 1,2% para suínos, 7% maior para lácteos e 5,5% menor para ovos) e R$ 383,9 bilhões para a agricultura, 1,1% menor. Soja deve cair 1%, a cana cai 13,5% e o milho sobe quase 10%. Para 2018, devemos fechar próximos a R$ 574 bilhões, puxados por crescimentos das seguintes culturas: trigo (73%), algodão (47%), cacau (34,9%), soja (12,5%) e café (10,2%), lembrando que a soja tem peso muito grande por conta do volume produzido. Pela CNA,
o PIB do agronegócio deverá crescer 2% em 2019, contra uma queda de 1,6% neste ano. Ou seja, boas promessas para volumes produzidos e valores faturados em 2019.

As exportações do agro em novembro cresceram 18,3% em relação ao mesmo mês de 2017 e chegaram a US$ 8,4 bilhões, deixando um saldo de US$ 7,2 bilhões quando descontadas as importações (US$ 1,2 bilhão). O agro vendeu 40% do total exportado pelo Brasil. Fortes aumentos na cadeia da soja (98% a mais no mês com cerca de US$ 2,5 bilhões) ajudaram muito nesses resultados. As carnes caíram 2,5% (vendendo US$ 1,3 bilhão) e produtos florestais outra vez surpreenderam, com 19% a mais (US$ 1,2 bilhão
exportados). Segundo a ABIOVE, a soja nos trará US$ 40,2 bilhões neste ano, 27% a mais que no mesmo período de 2017. São US$ 33,1 bilhões em grãos, US$ 6,2 bilhões em farelos e US$ 1,01 em óleo. Um crescimento impressionante, máquina geradora de recursos, imaginemos isso transformado em reais.

Entre janeiro e novembro, chegamos a US$ 93,2 bilhões exportados, 4,6% a mais que o mesmo período de 2017. Faltam US$ 6,8 bilhões em dezembro para superar a marca de US$ 100 bilhões em um ano (janeiro a dezembro), acho que conseguiremos, pela primeira vez em nossa história.

A China é o nosso principal destino, e pulou sua participação de 18% para quase 35% das compras, quando se compara os dois novembros (2017 e 2018). A performance chinesa em compras do agro brasileiro é realmente impressionante. Considerando os dados fechados do MAPA até novembro, números arredondados, em soja as compras estão 32% maiores, atingindo 82% do total exportado pelo Brasil, as carnes cresceram quase 50% (US$ 2,4 bilhões), a celulose 60% (US$ 2,84 bilhões) e algodão cresceu 140%. Nosso superávit comercial com a China deve ser recorde em 2018, podendo chegar a US$ 30 bilhões (25% maior), sendo quase a metade do total do nosso superávit (MDIC). A corrente comercial Brasil/China passou de US$ 74,8 bilhões no ano passado para quase US$ 100 bilhões em 2018. Vendemos commodities (soja, petróleo e minério de ferro representam perto de 90%) e compramos produtos industrializados. Aliás, este é um dos fatos da China incomodar cada vez mais os EUA e Europa, entre outros, pois as exportações de seus produtos passa a evoluir das tradicionais coisas baratas com pouca
tecnologia para produtos com alto conteúdo tecnológico e design.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) mostra que o Brasil fortaleceu em 2017 sua posição protagonista no agronegócio mundial. Além da liderança mundial em café, suco de laranja, açúcar (54%), frango (34%), tabaco (14%), soja (50%), temos ainda 16,2% na carne bovina (segundo colocado), 9,7% na carne suína (quarta posição), 10,4% no algodão (4º lugar) e 3% em animais vivos.

Os produtores americanos serão compensados pela disputa comercial com a China. O total do programa é de US$ 12 bilhões, sendo que uma primeira parcela já foi paga, e agora deve sair uma segunda parcela. Além disso, a nova Farm Bill pode trazer apoio de mais de US$ 2 bilhões aos cotonicultores em 10 anos, um tipo de suporte que já foi condenado na demanda anterior movida pelo Brasil na OMC em 2002. São os chamados Price Loss Coverage (PLC) e o Agricultural Risk Coverage (ARC) compensando preços menores no mercado, e como consequência, podendo novamente inflar a produção e
prejudicar preços. Precisa contestar caso materializado. Aliás, não são apenas os subsídios que ameaçam tirar valor da nossa produção, pois conflitos comerciais também trazem prejuízo ao crescimento da economia mundial no curto prazo e no médio prazo os países superavitários precisarão comprar mais, e para isso terem mais políticas de distribuição de renda.

Agrava-se a peste suína africana que atinge a produção na China, que domina 50% da produção mundial. Pode chegar já a 1 milhão o número de animais abatidos, e caso a doença se alastre, a suinocultura brasileira tem grande oportunidade depois de períodos muito ruins com o embargo russo e outros fatores que contribuíram para derrubar os preços. Segundo a ABPA, preços de exportação para a China já aumentaram em 7%, chegando próximos a US$ 2/kg. A Rússia também vem gradualmente levantando o embargo aos frigoríficos do Brasil, temos aumento de consumo nesta época do ano e os
preços dos grãos em reais devem ser um pouco menores em 2019 com a supersafra, ajudando no preço das rações e melhorando o ambiente para uma das cadeias produtivas que mais sofreu em 2018, um ano que a suinocultura quer apagar.

Outra boa notícia neste novembro foram as vendas de máquinas agrícolas e rodoviárias, que cresceram 27% em comparação com 2017. Como rodoviárias representam apenas 5%, portanto a venda cresceu mesmo foi no campo. Segundo a ANFAVEA, as vendas neste ano devem ser quase 11% maiores.

Interessante estudo realizado pelo Estadão a partir do Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR) mostra a presença de estrangeiros na posse de terras no Brasil. Temos pouco mais de 28 mil propriedades em nome de estrangeiros, num total de 3,6 milhões de hectares, sendo 1,3 milhão em pessoas físicas e 2,3 milhões em empresas, em cerca de 60% dos municípios do Brasil. Os japoneses lideram, com quase 7 mil propriedades e cerca de 10% do total da área. Em mãos de chineses apenas 10 mil hectares. Portugal,
Espanha, Alemanha, Holanda, EUA, Argentina e Líbano vêm na sequência do Japão. Registros antigos não indicam se são estrangeiros, portanto o número deve ser maior que este. O parecer da AGU de 2010 trava investimentos, que seriam extremamente importantes ao Brasil. Também não avançou uma proposta no Congresso para liberar mais áreas. Minha opinião é favorável à liberação, com uma regulação eficiente que permita o investimento e o respeito aos recursos como solo, água, entre outros.

Em relação às empresas, estudo do BTG Pactual no setor de carnes mostra interessantes dados. Passamos por uma grande onda de crescimento, com aquisições e fusões (84 desde 2007) o que fez com que o faturamento de BRF, JBS, Marfrig e Minerva passasse de R$ 50 bilhões para R$ 250 bilhões em apenas 10 anos. Foi um período de elevação muito grande do endividamento e baixo retorno aos acionistas. Para o próximo período o BTG
espera melhores resultados, com venda de ativos, redução de dividas e melhorias nas operações, recomendando investimento nas ações.

Caso interessante de agricultura integrada que saiu neste mês foi o da empresa Meicai, uma startup chinesa que apareceu para conectar produtores rurais e donos de restaurantes, principalmente para produtos perecíveis, entre eles os hortícolas, abastecendo restaurantes em menos de 18 horas. Já vale US$ 7 bilhões no mercado, empregando 9 mil pessoas com esta conexão direta. Um modelo inspirador para que no Brasil possamos replicar e unir pequenos produtores diretamente aos restaurantes das cidades próximas, empoderando a agricultura local e estimulando inclusive o crescimento da produção e alimentação saudável.

No mesmo ambiente de negócios digitais, o Pão de Açúcar comprou o aplicativo James Delivery, que faz encomendas, retiradas e entregas de diversos tipos de produtos de supermercados, drogarias e restaurantes escolhidos pelo comprador virtual. A ideia é de criar o chamado “marketplace” alimentar. Também estão em vias de adquirir o Cheftime, para assinatura de receitas. É a convergência de forças no mercado digital alimentar, na luta pela “última milha” que liga o varejo ao consumidor. Interessante que apenas este aplicativo emprega 700 pessoas em entregas.

Finalizando, foi um mês de pouca alteração nos preços das nossas commodities. Soja 2% superior a outubro, mas 10% inferior a novembro de 2017. Milho 1% abaixo de outubro e 6% superior a 2017. Algodão 1% acima do mês passado e 12% acima de 2017, o café 2% abaixo de outubro e 10% abaixo de 2017, açúcar com queda de 3% no mês e 14% no ano e o suco de laranja caiu 3% no mês e 14% no ano (Valor Data). No boi a arroba passou de R$ 150 e temos boas perspectivas de exportação em 2019.

Temos que observar o clima agora no Brasil e na Argentina e as expectativas de plantio nos EUA. Até então, acredita-se numa ligeira migração de área de soja para milho e trigo, uma vez que a expectativa de preços é de US$ 8,80 e US$ 4,00 por bushel, respectivamente. As diferenças de preços entre o Brasil e EUA caíram pois existe chance de compra de 10 milhões de toneladas pelo Governo Chinês e por compradores que teriam o rebate das tarifas de importação neste momento em que nossa soja já foi vendida. Estoques de soja nos EUA estão muito altos e esta migração de áreas de soja poderia ser boa para preços no Brasil. Além do clima, o principal a ser observado é a
questão comercial com a China, como vai evoluir na soja, pois ela interferirá na expectativa de plantio. O aumento dos juros nos EUA deve segurar um pouco mais uma esperada valorização do real.

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Marcos Fava Neves é Professor Titular dos cursos de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAEASP/FGV em São Paulo. Especialista em  planejamento estratégico do agronegócio. Embaixador do conhecimento na Credicitrus.

Escrito por sicoobcredicitrus

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