A moagem da cana, desde 1° de abril até 15 de maio, está em 103,02 milhões de toneladas (21,67% maior). Praticamente 45,3% da cana-de-açúcar foi para produção de açúcar, bem acima dos 32,19% da safra anterior. Com isto, já se aumentou a produção de açúcar em quase 2,5 milhões de toneladas no comparativo registrado até a mesma data de 2019. Assim, a produção acumulada de açúcar alcançou 5,49 milhões de toneladas, contra 2,98 milhões de toneladas. No mercado interno as vendas estão em quase 976 mil toneladas (4,1% acima) e as exportações estão 49% maiores, atingindo 2,4 milhões de toneladas.

A qualidade da cana também é destaque, com a quantidade de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) em 130,82 quilos por tonelada, quase 9,3% acima.

O complexo sucroalcooleiro aumentou suas vendas externas no mês de abril em 45,5%, alcançando US$ 522,17 milhões. Virão muito bons os números de maio também.

As vendas externas de açúcar em abril cresceram 34,0%, atingindo US$ 475,05 milhões, beneficiada pela quebra de safra na Índia, estimada em 5,0 milhões de toneladas. As estimativas da produção brasileira de açúcar para esta safra encostam já em 37 milhões de toneladas. Alguns analistas acreditam que o Brasil pode exportar até 29 milhões de toneladas de açúcar no ciclo 2020/21. Seriam 9 milhões a mais do que o exportado na safra que terminou (cerca de 20 milhões).

Aumentam chances de exportar para a China pois a política de salvaguarda colocada em 2017 não foi renovada. Esta política aumentou de 50 para 95% o tributo acima do que passasse das 1,95 milhão de toneladas de importação (onde incidem 15%). Agora todo o volume que passar é tributado em 50%. Na safra anterior volume exportado pelo Brasil foi de 1,3 milhão de toneladas. Mas já se chegou a exportar mais de 2,5 milhões de toneladas em um ano para este país.

Já a Archer estima em 23,5 milhões de toneladas o que será exportado, e destas, 81,7% já foram fixadas (19,2 milhões de toneladas) a um valor médio de 13,11 centavos de dólar por libra-peso ou R$ 1,297 por tonelada FOB Santos (com pol). Estima que valores já conseguidos para fixação das safras de 2021/22 e 2022/23 estão acima de R$ 1400/tonelada, o que permite rentabilidade no açúcar.

Como aumentará a produção de açúcar no Brasil e as exportações, nossa participação no comércio mundial volta a aumentar e a consultoria INTL FCStone estima uma correlação entre o dólar comercial no Brasil e preço do açúcar em Nova York de quase “-91,1%”, ou seja, a mudança no câmbio afeta diretamente a mudança no preço internacional.

Como ponto negativo, temos que observar como a redução da atividade econômica vai se traduzir em queda no consumo mundial de açúcar. O consumo na Índia pode cair até 2 milhões de toneladas de açúcar e em outros mercados também.

De quanto será a queda no consumo de combustíveis neste ano? Para o etanol, este é o grande ponto de debate. No ano passado, o consumo foi de 60,7 bilhões de litros (gasolina A, anidro e hidratado), que transformados em gasolina equivalente somam 53,4 bilhões de litros. Em abril o consumo de combustíveis no geral caiu 23%, segundo a ANP. Na gasolina foram 2,27 bilhões de litros (queda de 28,8%) para o mês e de 9,5% para o ano. No caso do hidratado foram consumidos 1,205 bilhão de litros (33,7% a menos) e no ano a queda é de 11,3%, fruto da política de isolamento.

O consumo de etanol vem voltando nos EUA e o USDA acredita em 5,2 bilhões de bushels (132 milhões de toneladas) o que será usado no período 2020/21, sendo 5,1% maior que no volume atual. Surpreendente esta estimativa.

De acordo com a UNICA, nos primeiros quinze dias de maio foram vendidos 1,05 bilhão de litros de etanol, queda de 22% se comparado ao mesmo período da safra 2019/20. De hidratado foram 729,23 milhões de litros, (24% a menos) e no anidro foram 292,57 milhões de litros (queda de 23,8%). As exportações de etanol aumentaram de US$ 3,04 milhões em abril de 2019 para US$ 45,83 no mesmo mês de 2020.

No acumulado da safra 20/21, as vendas são de 2,85 bilhões de litros (queda de 26,3%). Destacam-se 175 milhões de litros vendidos para fins não carburantes.

De acordo com o relatório da UNICA, a produção de etanol de milho na temporada 2020/2021 cresceu 92,42% atingindo 293,39 milhões de litros (86,77 milhões de anidro e 206,62 milhões de hidratado).

Em abril, o volume de milho que não foi usado para se fazer etanol nos EUA foi de 165 milhões de bushels (4 milhões de toneladas).  Por outro lado, aumentou 8 milhões de bushels o milho usado para etanol industrial (limpeza).

Como ponto negativo, deve ser sensivelmente menor o crescimento da frota brasileira neste ano, reduzindo o potencial esperado de consumo de combustíveis.

Enfim, muitas variáveis ainda no mercado de etanol. Ao terminar esta coluna os preços do hidratado haviam se recuperado bem, estando em quase R$ 2/litro nas usinas, incluindo impostos pelo informativo SCA.

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar agora em junho na cadeia da cana:

  • A política de isolamento e impactos no consumo de combustíveis no Brasil. Principalmente a velocidade de recuperação do consumo em junho.
  • Acompanhar os impactos do coronavírus no crescimento econômico mundial e brasileiro e nos preços do açúcar e do petróleo, principalmente. Ao fechar a coluna o barril do petróleo tipo Brent estava em US$ 40 (excelente recuperação no mês) e o açúcar a cerca de 10,40 cents/libra peso.
  • O clima e o andamento da safra no Brasil, e se teremos impactos com as restrições operacionais colocados pela crise do coronavírus. Por enquanto a safra vem vindo muito bem.
  • O andamento da safra de açúcar no hemisfério norte e o déficit na produção advindo das quebras. Até agora as notícias são de aumento das quebras, o que seria bom para os preços.
  • O comportamento das exportações de açúcar do Brasil, que vem surpreendendo as melhores apostas e com isto o mix de cana direcionado a açúcar.

Penso que ainda temos chances de recuperar neste ano e chegar ao final com valor do ATR entre 0,66 e 0,70. O açúcar tem ajudado e se o etanol se valorizar, e pode ser que aconteça se o consumo de combustíveis voltar e com toda a cana que está sendo alocada para açúcar, termos bons valores no ultimo quarto do ano e puxar o ATR para cima.

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Marcos Fava Neves é Professor Titular dos cursos de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAEASP/FGV em São Paulo. Especialista em  planejamento estratégico do agronegócio.

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Escrito por sicoobcredicitrus

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