Vamos aos nossos fatos relevantes do mês de novembro e as perspectivas para dezembro. Na cana…  no total até 16 de novembro, a moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul chegou à 585,73 milhões de toneladas, aumento de 3,69% em comparação ao acumulado do ciclo 2019/20, de acordo com o Boletim da UNICA. A produção de açúcar chegou à 37,66 milhões de toneladas, um volume adicional de 11,59 milhões de toneladas neste ciclo. No etanol, já foram produzidos 28,29 bilhões de litros, sendo que a proporção está em 68% de hidratado e outros 32% do anidro.

Para o mix de produção, até 16 de novembro, 46,5% da cana foi destinada à produção de açúcar (34,8% na safra anterior), e os outros 53,5% na produção do etanol (65,2% no ciclo anterior). Em outubro, os canaviais registraram a primeira retração em produtividade desde o início da safra, com queda de 5,3% frente ao comparativo anual, atingido 63,4 toneladas/hectare, o que pode ser explicado pela falta de chuvas. No entanto, no acumulado da safra, o rendimento está em 79,6 toneladas/hectare (2,4% superior).

Para a próxima safra, estimativas feitas pela UNICA apontam para uma produção 4% menor, com moagem total de 575 milhões de toneladas. No etanol, a queda deve ser de 5,2%, de 27 bilhões deste ciclo para 25,6 bilhões no próximo. Já o açúcar deve sofrer retração de 10%, dos atuais 38,2 para 34,2 milhões de toneladas. A seca prolongada e os efeitos do La Niña são os principais fatores que explicam estas projeções.

Para o Rabobank a projeção 2021/22 é de moagem de 575 milhões de toneladas. A produção de açúcar deve atingir o volume recorde de 38,2 milhões de toneladas e 27 bilhões de litros de etanol.

Com o aumento nas vendas internacionais de açúcar e dólar em patamares elevados, o setor sucroenergético passa por uma boa fase de redução de alavancagem, a qual deve se estender visto as antecipações de vendas já constatadas. De acordo com pesquisa do Itaú BBA com 59 usinas da região Centro-Sul, as receitas do setor cresceram 11,35% atingindo R$ 61,8 bilhões; o Ebitda aumentou quase 22%, chegando a R$ 15 bilhões; e os investimentos totalizaram R$ 10,3 bilhões (+24%), no comparativo da safra 2019/20 com a anterior. É verdade que a dívida liquida também cresceu 13% para 51 bilhões, explicado pela variação cambial. Segundo a RPA, 22% das usinas (96 do total de 444) estão em processo de recuperação judicial, outros 6% (27) estão falidas e 23% (103 usinas) estão paradas. Os números são consequências ainda presentes da crise que o setor atravessa desde 2008, intensificada com a pandemia.

O mês de novembro foi marcado por um grande imbróglio nas metas de aquisição de CBIOs. As distribuidoras solicitaram, na Justiça Federal, nova redução das metas individuais de compra dos créditos em 50%, alegando não haver tempo hábil disponível em 2020, além de haver represamento de vendas. A Justiça Federal acatou a solicitação dos distribuidores, no entanto, voltou atrás após recurso emplacado pela ANP. Assim, a meta permanece nos 14,5 milhões de títulos em 2020. Já estão disponíveis na B3, 15 milhões de créditos de descarbonização, sendo que 8,8 milhões já foram negociados, o que equivale a 60% da meta. Os preços atingiram recorde de R$ 72,00 no começo de novembro, mas oscilam no mês entre R$ 40 a R$ 50.

A São Martinho revelou, em seu relatório do segundo trimestre da safra 2020/21, lucro líquido de R$ 332 milhões, valor cinco vezes maior ao constatado no ciclo passado; já o Ebitda atingiu R$ 476,2 milhões (+22,8%). A receita com açúcar cresceu 89,7%, compensando a redução de 7% com a comercialização de etanol.

No açúcar…nos primeiros 15 dias de novembro foram fabricados 1,24 milhão de toneladas de açúcar, 57% a mais que no mesmo período de 2019, de acordo com a UNICA.

As exportações de açúcar de outubro cresceram 121% frente ao mesmo mês em 2019, atingindo US$ 1,2 bilhão. O mercado chinês foi o grande destino, responsável por 26% das importações. As vendas cresceram substancialmente para outros países como EUA (+202,3%), Bangladesh (+94,1%) e Índia (+33,8%). Em relação à China, apenas em outubro, o crescimento mensal foi de 94,3% em comparação ao mesmo mês de 2019. No total, o país asiático já comprou 3,65 milhões de toneladas no ciclo atual, valor 28,4% maior em comparação ao anterior.

O USDA estima que a produção de açúcar da Índia deve crescer 17% na próxima safra, chegando à 33,76 milhões de toneladas, especialmente em função do aumento nas áreas cultivadas com cana. Deve ofertar 6 milhões de toneladas ao mercado internacional (5,5% a mais que este ciclo), e o consumo interno deve crescer em 1,5 milhão de toneladas (de 27 para 28,5 milhões de toneladas).

Em relação aos preços, o CEPEA/USP indicou um recorde para o valor da saca de açúcar cristal, desta vez aumento de 8% no acumulado de novembro, chegando à R$ 108,68 por saca de 50kg.

A recente valorização do real explica a desvalorização do açúcar em R$ 70,00 por tonelada nas negociações para março do próximo ano. Esses comportamentos precisam ser acompanhados, uma vez que podem ter relação imediata com o adiamento nas fixações tanto para a próxima safra (2021/22), como para a seguinte (2022/23).

O Rabobank estima que os preços de açúcar na próxima safra (2021/22) deverão ficar entre 13 a 14 cents por libra peso no primeiro semestre, e no segundo entre 12 e 13,5 cents.

A Organização Internacional do Açúcar (OIA) projeta um déficit de 3,5 milhões de toneladas de açúcar para a safra 2020/21.

Segundo estimativas da Archer Consulting, até 31 de outubro, 45% das exportações da safra 2021/22 já estariam com preço fixado, em aproximadamente 12,50 cents/libra-peso; já para o ciclo seguinte, a projeção é de 11%. Em vista disso, a Raízen divulgou que iniciou as negociações de venda do açúcar da safra 2022/23, com travamentos feitos na ordem de 64 centavos de real por libra-peso. Para 2021/22, a empresa já negociou cerca de 70% do açúcar que irá produzir a valores médios de 65,5 centavos de real por libra-peso. Já a Tereos informou que deverá aumentar suas exportações de açúcar bruto em 60% no ciclo 2020/21, atingindo 1,15 milhões de toneladas. Para isso a companhia francesa investiu R$ 205 milhões em novos armazéns no porto de Santos e Guará, em parceria com a VLI, os quais possuem capacidade total de 240 mil toneladas. Na safra 2020/21, a agroindústria processou 20,9 milhões de toneladas, recorde histórico para o grupo.

No etanol…o volume produzido de etanol na primeira quinzena de novembro foi de 1,18 bilhão de litros, uma redução de 9,6% em comparação ao mesmo período do ano passado.No etanol de milho, a produção já acumula 1,52 bilhão de litros até o momento (+87,5%).  Apenas na primeira quinzena de novembro, a produção foi de 114,53 milhões de litros.

Apesar de as vendas terem novamente registrado queda na primeira quinzena de novembro (790,8 milhões de litros, 17,2% menor que o mesmo período de 2019), a retração tem sido menor que nos outros meses, especialmente pelo aumento nas exportações e pela venda do anidro.

De acordo com a UNICA, no acumulado da safra atual, as vendas de etanol sofrem retração de 12,5%, com um total de 19,05 bilhões de litros comercializados até 16 de novembro. O destaque fica para as exportações, que registram crescimento de 40,8% neste período, somando 1,94 bilhão de litros. Em outubro, os EUA lideraram a importação do biocombustível (US$ 63,9 milhões) além da Coréia do Sul (US$ 45,8 milhões) e União Europeia (US$ 45,7 milhões).

Na visão global do etanol, a produção para 2020 foi revista para 100,9 bilhões de litros, volume 11,8% menor que no ano anterior (114,4 bilhões). O consumo, por sua vez, deve ficar em torno de 98,3 bilhões de litros, 13 bilhões a menos que no ano anterior. No entanto, para 2021 as projeções apontam recuperação do consumo para 105,4 bilhões de litros.

No Brasil, O MME projetou, em seu Plano de Decenal de Expansão de Energia, uma oferta de 46 bilhões de litros de etanol para 2030, considerando o proveniente da cana (1ª e 2ª geração) e do milho. Por outro lado, a demanda deve atingir 43 bilhões de litros, com balanço positivo para todo o decênio. Já a demanda por biodiesel deve atingir 11,4 bilhões de litros, com adição de 15% ao diesel B a partir de 2023, e o óleo de soja como principal matéria-prima.

No Reino Unido, o governo anunciou que irá proibir a fabricação de novos veículos movidos a gasolina e diesel a partir de 2030. A ação faz parte da “revolução industrial verde”, plano do país para zerar suas emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050, projeto que deve demandar algo em torno de 12 bilhões de libras.

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar agora em dezembro na cadeia da cana:

  1. Observar o consumo de etanol no mercado interno. Ao fechar esta coluna pelos dados da SCA o litro do hidratado estava R$ 2,50 com impostos nas usinas e o anidro a R$ 2,55. O barril do petróleo tipo Brent estava em US$ 49, com boa recuperação no mês.
  2. Acompanhar os impactos do coronavírus no consumo mundial do açúcar. Ao fechar a coluna o açúcar a cerca de 14,45 cents/libra peso na tela de março de 2021. Com o câmbio atual, é um elevado preço em reais. Temos bom câmbio, boas exportações para a Ásia, e quebras na Tailândia, que representou uma grande janela. Ano que vem temos que alocar mais cana para etanol e fazer o mercado de açúcar permanecer firme. A Índia, com o aumento de produção, é o fator baixista principal nesta safra que se iniciou. Acredita-se que a maior parte do estoque ainda existente hoje no Brasil já foi vendida.
  3. A falta de chuvas no desenvolvimento da safra 2021/22. Expectativas são que teremos apenas 575 milhões de toneladas de cana em 2021/22, entre 3 a 4% a menos que nesta safra.
  4. As exportações de açúcar do Brasil que estão incrivelmente altas e estoques caindo, o que pode refletir na situação da próxima safra e preços no mercado interno;
  5. Observar o que deve acontecer com os planos de Joe Biden nos EUA e as políticas na área do etanol de milho e nas questões ambientais. A adoção do E15 nos EUA seria o maior presente ao agronegócio mundial em 2021.

Marcos Fava Neves é Professor Titular dos cursos de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAEASP/FGV em São Paulo. Especialista em  planejamento estratégico do agronegócio.

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Escrito por sicoobcredicitrus

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