O cartão de crédito é um dos principais meios de pagamento dos brasileiros. Prático, seguro e amplamente aceito, permite concentrar despesas em uma única data de vencimento, facilita compras presenciais e online e oferece benefícios como programas de pontos, cashback e parcelamentos sem juros.

No entanto, embora ajude as pessoas a organizar as finanças, precisa ser usado com atenção ao uso dos limites, para evitar que o endividamento pessoa ou da família escape ao controle. A linha que separa o cartão como solução do cartão como problema é definida essencialmente pela forma como é utilizado.

Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que o cartão de crédito aparece há anos entre as principais modalidades de dívida das famílias brasileiras. Isso inclui todas as dívidas, desde as saudáveis, feitas com planejamento e controle, até as problemáticas. Em diversas pesquisas da entidade, mais de 80% das famílias declararam possuir algum compromisso financeiro relacionado ao cartão, evidenciando sua importância na vida econômica do país.

Ferramenta de apoio ao planejamento

Especialistas em educação financeira destacam que o cartão de crédito, por si só, não representa um problema. Pelo contrário: utilizado dentro dos limites da renda, pode funcionar como uma importante ferramenta de gestão do orçamento doméstico.

Ao concentrar despesas em uma única fatura mensal, o consumidor ganha maior previsibilidade dos compromissos financeiros e pode acompanhar mais facilmente a evolução de seus gastos. O histórico de compras também contribui para o controle das despesas, permitindo identificar excessos e ajustar hábitos de consumo.

Além disso, o cartão pode ser especialmente útil para a aquisição de bens duráveis, como eletrodomésticos, móveis, computadores e equipamentos de maior valor agregado. Nesses casos, o parcelamento sem juros possibilita distribuir o custo ao longo do tempo sem comprometer o orçamento mensal.

Outra vantagem é a rapidez nas transações e a possibilidade de aproveitar promoções ou condições especiais oferecidas pelo comércio.

Risco: falsa sensação de poder de compra

Apesar das facilidades, o cartão impõe um importante desafio comportamental: a sensação de que o dinheiro disponível é maior do que realmente é. Isso porque, diferentemente do que ocorre com uma compra paga em dinheiro ou por débito, o desembolso não ocorre imediatamente, e isso reduz a percepção do gasto e pode estimular o consumo impulsivo.

Segundo estudos de comportamento do consumidor realizados em diversos países, pessoas tendem a gastar mais quando utilizam meios de pagamento que não exigem desembolso imediato. O fenômeno é explicado pela menor “dor de pagar”, expressão utilizada por economistas comportamentais para descrever o desconforto psicológico associado à saída de dinheiro.

Na prática, isso significa que compras aparentemente pequenas podem passar despercebidas, porque são “indolores”, porém quando somadas a várias outras do mesmo tipo acabam resultando em uma fatura bem mais pesada da que a esperada.

Armadilha: parcelar despesas do dia a dia

O parcelamento de despesas com itens de consumo imediato ou durante o mês está entre os erros mais comuns no uso do cartão de crédito. Alimentos, refeições em restaurantes, medicamentos de uso contínuo, pedidos de delivery, ingressos para eventos, tíquetes para diversões ou pequenas compras de rotina costumam gerar satisfação instantânea, mas desaparecem rapidamente.

Imagine uma refeição parcelada em quatro vezes. Quando a última parcela for quitada, a experiência correspondente terá ocorrido meses antes. O problema se agrava quando novas despesas do mesmo tipo são continuamente parceladas, porque será criado o famoso efeito de “bola de neve”, reduzindo a capacidade financeira futura.

Especialistas recomendam reservar o parcelamento para aquisições de bens duráveis ou investimentos que gerem benefícios por um período compatível com o prazo de pagamento.

Parcelar faturas só em último caso

Se o parcelamento da compra pode ser administrado com planejamento, a situação muda completamente quando o consumidor deixa de pagar integralmente a fatura. Aí o custo sobe. Historicamente, os juros do crédito rotativo figuram entre os mais elevados do sistema financeiro brasileiro.

A Credicitrus não tem controle sobre esses juros, que são aplicados pelas administradoras dos cartões (como as bandeiras Visa e Mastercard). Segundo levantamentos periódicos do Banco Central do Brasil, as taxas praticadas no crédito rotativo permanecem muito acima das observadas em modalidades como crédito consignado ou financiamento imobiliário.

Por essa razão, especialistas são praticamente unânimes em uma recomendação, que todo consumidor deve considerar como uma verdadeira “regra de ouro”: utilizar o cartão apenas para despesas que possam ser integralmente quitadas na data de vencimento da fatura.

Educação financeira, o melhor limite

Mais importante do que o limite concedido pela Cooperativa é o limite definido pelo próprio cooperado para seu orçamento pessoal ou familiar. A recomendação básica consiste em acompanhar continuamente o valor das compras realizadas, sem esperar o fechamento da fatura, o que pode ser feito por meio do aplicativo do cartão. Outra orientação é registrar os parcelamentos futuros para evitar a ilusão de que a renda dos meses seguintes está totalmente disponível.

Também é aconselhável revisar regularmente os gastos, cancelar despesas recorrentes desnecessárias e evitar utilizar o limite do cartão como complemento de renda.

Conclusão

Os cartões estão no centro das discussões sobre o endividamento descontrolado das famílias brasileiras. É um tema quase diário nos noticiários. Isso leva, muitas vezes, à falsa conclusão de que o cartão seria um inimigo das finanças pessoais.

Na realidade, o cartão é apenas uma ferramenta, um instrumento. Nas mãos de um consumidor disciplinado, que planeja e controla gastos, proporciona vantagens como conveniência, segurança e organização financeira.

Em contrapartida, quem compra por impulso, parcela despesas cotidianas excessivamente ou recorre ao crédito para sustentar um padrão de consumo incompatível com sua renda, transforma o cartão em uma fonte permanente de endividamento e, consequentemente, de preocupação e intranquilidade.

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