Seguem nossas reflexões dos fatos e números da cana em julho/agosto e o que acompanhar em setembro. A moagem de cana-de-açúcar alcançou o valor acumulado de 304,01 milhões de t desde o início do ciclo até 1º de agosto, o que representa uma redução de 7,31% frente ao mesmo período de 2020. Com relação à qualidade da matéria-prima, o ATR acumulado registrou valor de 136,73 kg/t, refletindo aumento de 1,07%. Por sua vez, o mix de produção está em 53,81% para o etanol e 46,19% para o açúcar, com o biocombustível ganhando participação de 0,68% sobre o adoçante em relação a 2020/21. O número de usinas em operação no ciclo é de 264, exatamente igual à safra passada.

Segundo estimativas da Orplana (Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil), a produção total de cana-de-açúcar na safra atual deve sofrer uma queda de 15%, saindo dos 605 milhões de toneladas estimados para aproximadamente 530 milhões de toneladas. De acordo com a organização, os impactos das secas e das geadas são os principais motivadores desta redução.

Já a StoneX prevê moagem de 541 milhões de toneladas contra a previsão anterior de 568 milhões, quase 11% menor. A estimativa é que 46,1% da cana seja destinada para a fabricação de açúcar, com uma produção de 34,6 milhões de toneladas (10% menor que a safra anterior). Com isto, a consultoria prevê agora déficit de 1 milhão de toneladas no mercado mundial, contra o superávit anterior de 1,7 milhão.

De acordo com o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), em julho, a produtividade das lavouras de cana foi 17,9% inferior àquela constatada no mesmo mês de 2020, atingindo 73,7 t/ha contra 89,8 t/ha. Considerando o acumulado do ciclo, a retração de produtividade é de 12,5%, estando em 75,5 t/ha. Soma-se ao período seco vivenciado nos meses de março-maio, as geadas ocorridas no final de julho.

Um estudo divulgado pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética), integrante do Ministério de Minas e Energia, mostrou que entre 2016 e 2020, o avanço na geração elétrica por biomassa no Brasil cresceu 16,1%, atingindo 15.396 MW. Apesar de positivo, o resultado vem abaixo do esperado, uma vez que nos cinco anos anteriores (2010 a 2015), o crescimento foi de 67,3%. Como consequência do crescimento menor, a fonte de energia por biomassa passa a responder por 8,8% da capacidade total do Brasil que, em 2015, era 9,4%. Segundo a Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar), o setor sucroenergético teria capacidade para entregar cerca de 200 mil GWh, o que significa um volume nove vezes maior frente ao total comercializado no Brasil em 2020, de 22,5 mil GWh, o que representa apenas 11% do potencial calculado.

Um relatório divulgado pelo Rabobank mostrou que 2/3 dos municípios responsáveis por toda a produção de cana-de-açúcar no estado de São Paulo possuem cobertura 4G em até 60%, e o outro 1/3 possui mais de 60% de conexão em sua área. Os dados foram obtidos em conjunto com a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). De acordo com o estudo do banco holandês, a região de Ribeirão Preto e Araraquara são as duas com maior nível de conexão do estado, enquanto a região de São José do Rio Preto e Araçatuba são as que apresentam menor conexão.

A UISA Bionergia + Açúcar já está adotando a robotização de processos, conseguindo rastrear todos os produtos vendidos. Via QR Code, o consumidor consegue ver todo o caminho do produto. O sistema também facilita a gestão de dados e a tomada de decisões, além dos ganhos de eficiência.

A Latam publicou release com a sua estratégia de sustentabilidade para os próximos 30 anos em quatro grandes áreas: gestão ambiental, mudanças climáticas, economia circular e valor compartilhado. A cana entra no maior uso de combustíveis renováveis.

No açúcar, as exportações de açúcar no mês de julho caíram 25%, para 2,47 milhões de toneladas, quando comparadas com julho de 2020. A receita, porém, caiu menos (10,7%), para US$ 8,13 milhões. Em relação a junho, a queda de volume foi de 10,24% e a de valor em 10,84%. De janeiro a julho foram vendidos 15,3 milhões de toneladas de açúcares e melaços, com um faturamento de US$ 4,96 bilhões. O volume está 6,04% maior e a receita em 21,5% maior.Já as exportações de açúcar nos últimos 12 meses (julho de 2020 até junho de 2021) atingiram mais de 32 milhões de toneladas. Quase 11 milhões acima do mesmo período do ano anterior.

Segundo dados da Unica, a produção acumulada de açúcar no ciclo 2021/22, até 1º de agosto, alcançou 18,29 milhões de t, queda de 7,68% frente ao ciclo passado. No mercado global, segundo a Archer, a área de cana na Índia caiu de 5,5 para 4,8 milhões de hectares. E o consumo de açúcar deve chegar a mais de 31 milhões de toneladas em 2025/26. Também na Índia, a StoneX prevê que cerca de 3 milhões de toneladas de açúcar virem etanol na safra 2021/22.

No etanol, os embarques de etanol diminuíram em 9% no comparativo entre julho de 2020 e 2021, totalizando US$ 117 milhões. No entanto, nos últimos 12 meses (julho de 2020 até junho de 2021) atingiram quase 3 bilhões de litros, 40% acima do mesmo período do ano anterior.

Dados consolidado pela Unica até 1º de agosto refletem redução de 3,41% na produção total de etanol em comparação à safra anterior, atingindo um volume de 14,11 bilhões de litros. Essa queda se deve principalmente ao hidratado, onde foram produzidos apenas 8,83 bilhões de litros (-14,86%). Na contramão, o anidro teve incremento de produção de quase 25%, chegando a 5,28 bilhões de litros. Em relação à produção no ciclo atual, a StoneX prevê 24,9 bilhões de litros, queda de 10,4%.

Com relação às vendas do biocombustível houve retração de 4,5% no mês de julho, registrando volume de 2,58 bilhões de litros, sendo 2,40 bilhões para o mercado doméstico e 182 milhões para exportação, o que levanta novamente o sinal de alerta. Considerando os valores acumulados da safra, foram comercializados 9,68 bilhões de litros (+5,94%), sendo 9,09 bilhões para consumo interno (+8,92%) e 597 milhões para o mercado externo (-20,42%).

O consumo de combustíveis no primeiro semestre cresceu 6,6% em relação ao mesmo período de 2020. Em junho foi 10,25% maior. O hidratado cresceu 2,7% (9,21 bilhões de litros), a gasolina 8,1% (17,8 bilhões de litros). No primeiro semestre, o etanol teve 46,4% da participação na matriz de combustíveis (ligeira queda em relação ao período anterior, que foi de 47,2%). O diesel aumentou 9%, chegando a 5,1 bilhões de litros.

A venda direta de etanol das usinas para os postos de combustível foi autorizada através de uma medida provisória assinada pelo Presidente da República. No entanto, ainda é necessário que o documento seja apreciado pela Câmara e Senado para se converter em lei.

Segundo dados do Ministério de Minas e Energia (MME), a participação dos biocombustíveis (etanol e biodiesel) em nossa matriz de combustíveis é ao redor de 25%, e o MME quer chegar a 30% até 2030.

A CerradinhoBio anunciou que investirá cerca de R$ 1 bilhão na construção de uma segunda usina para produção do etanol de milho no país. O grupo, que já tem uma unidade do modelo “flex” em Chapadão do Céu (GO), planeja instalar sua segunda unidade em Maracaju, o maior município produtor de milho do estado do Mato Grosso do Sul. A unidade terá capacidade para moagem de 1,1 milhão de toneladas de milho por ano, e de produção de até 510 milhões de litros do etanol. Quando o projeto for concluído, as duas unidades da Neomille (empresa de produção de etanol de milho do grupo CerradinhoBio), terá capacidade total de produzir até 840 milhões de litros de etanol por ano.

A Volkswagen tem feito grande aposta no etanol, passando o Brasil a ser o centro de pesquisas da empresa, e provavelmente o fabricante de motores flex para a Índia. Segundo informações da empresa, no comparativo entre veículos rodando 200 mil km, o movido a etanol emitiria em média 93 gCO2e/km e o elétrico 95gCO2e/km. O híbrido seria de 86 gCo2e/km. O foco da VW será nos motores híbridos flex.

Um estudo feito por pesquisadores do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia de Materiais), em parceria com o IAC (Instituto Agronômico de Campinas), e publicado na revista “Renewable & Sustainable Energy Review”, mostrou que o etanol brasileiro polui ainda menos do que se imaginava. A pesquisa considerou um novo fator de emissão de Óxido Nitroso (N20), poluente 300 vezes mais nocivo à atmosfera que o CO2. Na metodologia do CNPEM, as emissões foram 19% menores que estudos anteriores, os quais consideram o método do IPCC (Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas). Com isso, mostrou-se que o etanol brasileiro tem capacidade de reduzir em até 73,3% as emissões anuais de carbono equivalente se comparado à gasolina.

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em setembro na cadeia da cana:

  1. Impactos da seca que assola os canaviais na produção de cana, açúcar e etanol;
  2. O consumo de etanol hidratado com a gasolina estando com preços melhores na comparação percentual e também com a recuperação da economia. Ao fechar esta coluna, pelos dados da SCA, o litro do hidratado estava em R$ 3,82/l com impostos nas usinas, e o anidro em R$ 3,80/l.
  3. O barril do petróleo tipo Brent estava em US$ 72. Devemos observar o seu comportamento em setembro, bem como o câmbio para entender os possíveis preços da gasolina e da paridade;
  4. Os reflexos da redução da produção de cana nos preços de açúcar. Ao fechar esta coluna, o açúcar estava em 19,9 cents/libra peso na tela de outubro de 2021. Um preço do açúcar muito alto pode não ser bom, colocando em risco a velocidade da Índia na adoção do etanol e trazendo de volta produções em outros locais;
  5. A continuidade das exportações de açúcar e os preços para o mercado interno que vêm se mantendo.

Valor do ATR: a safra 2021/22 teve início com valores de ATR em abril e maio de, respectivamente, R$ 1,0141/kg e R$ 1,0564/kg. Já para o mês de junho, o valor manteve a tendência de alta, alcançando R$ 1,0630/kg. Finalmente, em julho, o indicador voltou a crescer, atingindo R$ 1,0878/kg. Dessa forma, o valor acumulado chegou a R$ 1,0573/kg.

Marcos Fava Neves é Professor Titular dos cursos de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAEASP/FGV em São Paulo. Especialista em  planejamento estratégico do agronegócio.

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Escrito por alsouzacredicitruscombr

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