Nosso resumo mensal traz os eventos principais de outubro e o que observar em novembro. O FMI revisou suas projeções para PIB global, o qual deve retrair 4,4% em 2020, enquanto que a estimativa anterior (junho) projetava tombo de 9,1%. Segundo as novas estatísticas, a economia dos Estados Unidos e Zona do Euro devem apresentar quedas de, respectivamente, 4,3% e 8,3%, enquanto que a economia chinesa deve crescer 1,9%. Para 2021 o crescimento global está estimado em 5,2%. A OMC estima queda de 9,2% no volume do comércio mundial de mercadorias para o ano de 2020, apesar deste mostrar sinais de recuperação frente à crise do Covid-19. Para 2021, projeta-se um crescimento de 7,2%.

O número de casos de Covid-19 voltou a crescer na Europa, implicando na retomada das medidas de isolamento social e preocupações quanto à saturação dos sistemas hospitalares. República Checa, Bélgica, Rússia, França, Itália e outros estão em situação crítica. Aumenta o temor global de uma segunda onda da doença.

No Brasil, de acordo com o boletim Focus de 30 de outubro, o mercado elevou sua expectativa para a taxa Selic em 2021, devendo terminar o ano em 2,75%, mantendo os patamares de 2,0% para 2020. A contração do PIB deve ser de 4,81% neste ano, voltando a crescer em 2021 a 3,34%. O IPCA deve fechar 2020 em 3,14% e 2021 em 3,30%, já o câmbio em R$ 5,45 e R$ 5,20, respectivamente.

Brasil e Estados Unidos firmaram acordo de fluxo bilateral de comércio e investimentos. A medida deve facilitar as transações entre os países, reduzindo a burocracia e aumentando sua transparência.

No mais, aqui continuamos meio que andando de lado, com a economia se recuperando em algumas áreas e em outras ainda hospitalizada, somando-se a complexidade das eleições municipais e expectativas quanto ao novo Presidente dos EUA. Pelo menos na questão sanitária do Coronavírus, os números a cada dia se mostram melhores e com a entrada do verão, a expectativa fica ainda melhor.

No Agro Mundial e Brasileiro…O USDA dminuiu novamente a projeção de produção de soja norte-americana do ciclo 2020/21, agora para 116,16 milhões de toneladas. A estimativa para o Brasil foi mantida em 133 milhões e a safra global da oleaginosa em 368,5 milhões, com estoques finais de 88,7 milhões.

Apesar de o plantel de suínos ter crescido este ano na China, estima-se que a produção de carne deverá cair 17% em decorrência da peste suína africana, segundo o Rabobank. O banco ainda projeta que a partir de 2021 a 2025 a China dependerá menos de importações e, portanto, o Brasil deverá se atentar a novos mercados como Filipinas, Vietnã e outros países do sudoeste da Ásia. Novos casos de peste suína foram relatados no sudoeste da China, identificados em cargas ilegais de leitões. Enquanto isso, na Alemanha, 91 casos da doença já foram confirmados. Os países estão em sinal de alerta.

O governo argentino reduziu os impostos sobre as exportações de grãos (as chamadas “retenciones”) de 33% para 30% em outubro. Ainda nesse pacote econômico, o governo deve anunciar tributação zerada para exportação de bens finais industriais. A Argentina é a maior fornecedora de trigo ao mercado brasileiro, e esta aprovou a liberação de uma variedade transgênica (HB4 da Bioceres) tolerante à seca e ao glufosinato. A comercialização da variedade está sujeita à autorização para importação do Brasil.

Segundo relatório divulgado pela Fortune Business Insight, o mercado global de substitutos de carne deve chegar à US$ 8,6 bilhões, em valores anuais, até 2026. A Marfrig e a ADM anunciaram o lançamento da PlantPlus Foods, joint-venture que deve focar seus negócios no portfólio de plant-based. As empresas estimam que o mercado potencial de alimentos à base vegetal, nos Estados Unidos e na América do Sul, chegue à US$ 2 bilhões. Boa parte das empresas brasileiras de proteína animal já estão ou entrarão neste segmento de mercado, que deve crescer, mas não ameaçar as carnes tradicionais.

O primeiro boletim da Conab sobre a safra brasileira de grãos 2020/21 estimou a produção em 268,7 milhões de toneladas, 4,2% a mais que no ciclo passado. A área plantada deve atingir 66,8 milhões de hectares (+1,3%). Para soja espera-se produção de 133,7 milhões de toneladas (+7,1%) em uma área de 37,8 milhões de hectares (+2,5%); no algodão devemos colher 2,82 milhões de toneladas (-6,3%) em 1,61 milhões de hectares (-3%); enquanto que no milho a safra total está estimada em 105,2 milhões de toneladas (+2,6%) em 18,5 milhões de hectares (-0,2%). Pensamos que este aumento de área projetado em cerca de 900.000 hectares a mais é conservador. Em nossa leitura a área pode chegar próxima a 70 milhões de hectares, a depender do clima.

Em mais uma atualização, o MAPA elevou a previsão do VPB da agropecuária, em setembro, para R$ 806,6 bilhões (+11,5% maior que em 2019). No total, R$ 543 bilhões correspondem a produção agrícola e outros R$ 263,6 bilhões à pecuária. O IPEA estima que o PIB agropecuário deverá crescer 1,9% em 2020, motivado pelos excelentes resultados da safra 2019/20. Já para 2021, o instituto projeta crescimento de 2,1%.

Apesar do otimismo para a próxima safra, o plantio da soja está atrasado em relação ao ciclo passado. Tal cenário pode atrapalhar a segunda safra de milho e algodão, visto o encurtamento da janela produtiva. E as chuvas estão muito irregulares ainda, resta a oração!

As exportações do agronegócio registraram valor de US$ 8,56 bilhões em setembro de 2020, incremento de 4,8% frente ao mesmo mês de 2019, de acordo com dados do MAPA. O complexo soja foi o carro chefe de setembro com vendas de US$ 2,22 bilhões (+3,5%), no entanto, o volume de grãos foi 2,9% inferior, chegando a 4,47 milhões de toneladas, reflexo da redução dos estoques nacionais. Logo em seguida aparecem as carnes, também com queda nas exportações (-5,3%) para US$ 1,36 bilhão, visto que apenas a carne suína teve incremento das vendas em 34,3% e chegando a US$ 187,18 milhão. Cereais e farinhas ficaram na terceira posição, vendendo US$ 1,15 bilhão (+2,6%), com o milho representando 90% desse valor. Tailândia, Indonésia e Vietnã foram destinos destaque. Já as importações do setor atingiram US$ 1,05 bilhão (+0,3%), com destaque para as compras de arroz; dessa forma, o agronegócio deixou um superávit de US$ 7,5 bilhões (+5,4%) para o mês, e um acumulado de US$ 68,71 bilhões.

2020 já é o melhor ano para a indústria de carne suína brasileira. As exportações superaram as do ano anterior, com embarques acumulados (jan-set) de 764,9 mil toneladas, contra 750 mil de 2019 (ano todo). O volume comercializado até então é 42,9% superior ao do mesmo intervalo do ano passado (até set), enquanto que a receita, de US$ 1,68 bilhão, é 51,9% superior, de acordo com a ABPA. A demanda por suínos do Brasil deve continuar aquecida nos próximos meses.

O governo brasileiro suspendeu as tarifas de importação para soja e milho de países de fora do Mercosul até 2021. Tal medida visa controlar a inflação nos preços dos alimentos, os quais cresceram em virtude dos baixos estoques e altas do dólar, que levaram a este surpreendente volume de exportações e temores de escassez no mercado interno, complicando os preços das rações e consequentemente, a vida da turma das carnes, ovos e leite, entre outros.

O Brasil registrou vendas externas de café em R$ 2,5 bilhões em setembro, 35,7% maior que no mesmo mês de 2019, de acordo com o Cecafé. Foram exportadas 3,8 milhões de sacas (8,6% maior).

No âmbito dos biocombustíveis, a ANP reduziu o percentual de mistura do biodiesel ao óleo diesel de 12% para 11% para os meses de novembro e dezembro desse ano. A medida ocorreu em função da falta de soja para produção (70% dos custos advém do grão).

A produção brasileira de ovos deve bater novo recorde neste ano, chegando a 53 bilhões de unidades, 7% a mais do que foi constatado em 2019, de acordo com o IOB. O consumo per capita também deve crescer para 250 unidades/habitante (+7%), favorecido pelo cenário de pandemia com busca por fontes mais baratas de proteína.

O arco Norte vem aumentando sua importância no escoamento da produção brasileira de grãos. De acordo com a Conab, considerando dados de jan-ago, 34% da soja e 31% do milho exportados pelo Brasil foram embarcados pelos portos do Arco Norte.

O Governo Federal simplificou a NR31 referente a legislação de trabalho rural, de modo a trazer mais segurança jurídica às relações trabalhistas, deixando as regras mais claras, além de autorizar treinamentos EaD e a utilização de moradias como alojamento, e criando o conceito de “trabalho itinerante” e o Programa de Gerenciamento de Riscos.

O mercado de defensivos biológicos cresceu 34% entre a safra 2018/19 e 2019/20 no Brasil, movimentando US$ 237 milhões, de acordo com estudo da consultoria Spark. No entanto, tal cifra ainda representa apenas 2,5% do mercado total de defensivos, estimado em US$ 12 bilhões, mas com enorme potencial de crescimento. 

Apesar da conectividade ter avançado no país nos últimos anos, dados da Anatel revelam que apenas 10,72% das áreas rurais possuem acesso à rede 4G, limitando o número de produtores que podem desfrutar de inovações e tecnologias da Agricultura 4.0.

Terminamos outubro com preços incríveis. No fechamento desta coluna para entregar em cooperativa de São Paulo, a soja estava em R$ 165/saca e da safra 2020/21 já sendo negociada a R$ 135/saca. Há um ano estava em R$ 82/saca. No caso do milho, R$79/saca e, para entregas em agosto de 2021, R$ 56/saca. Há um ano o milho estava em R$ 40/saca. No boi, a arroba era negociada a quase R$ 280. Praticamente nada aponta para redução destes nos próximos 2 a 3 meses.

Os cinco fatos do agro para acompanhar agora diariamente em novembro são:

  1. As chuvas no Brasil e o andamento da safra. Previsões do clima para a safra 2020/21 de grãos é, de longe, a principal variável não apenas no Brasil, mas para o mundo observar.
  2. Os números finais da safra colhida nos EUA e os estoques de passagem;
  3. Importações da China nas carnes e grãos e também dos outros países asiáticos e os impactos nos preços das rações no mercado interno;
  4. As eleições municipais no Brasil, as forças políticas e como caminharemos com as reformas e seus impactos no câmbio. Os resultados das eleições dos EUA e os impactos no agro do Brasil.
  5. A questão da inflação dos alimentos no Brasil e os danos à imagem do setor junto aos consumidores finais.

Marcos Fava Neves é Professor Titular dos cursos de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAEASP/FGV em São Paulo. Especialista em  planejamento estratégico do agronegócio.

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Escrito por sicoobcredicitrus

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