O impacto do ser humano no meio ambiente tem sido o principal responsável pelos desequilíbrios observados em todo o planeta, principalmente a partir da Primeira Revolução Industrial, no final do século dezoito. Desde então, o volume de resíduos gerados nos processos produtivos tem aumentado continuamente, representando um desafio crescente para a humanidade. Nesse cenário, cabe uma pergunta: como a agricultura tem solucionado essa questão?

A resposta a essa pergunta foi dada no vigésimo segundo episódio da Jornada SOMAR Forças da Credicitrus, nas apresentações feitas pela cooperada Luciana Abeid Ribeiro Dalmagro e os cooperados Victor Paschoal Cosentino Campanelli, Diogo José de Castilho Neto e Claudio Nasser de Carvalho, todos produtores rurais e membros de famílias que tradicionalmente se dedicam ao campo.

O evento foi realizado no dia 12 de maio, com transmissão ao vivo pelas redes sociais da Cooperativa. O cooperado e professor Marcos Fava Neves, da USP e da FGV, foi o mediador do encontro, função que vem desempenhando desde o primeiro episódio da série. Ainda participaram do evento os diretores executivos da Cooperativa Walmir Fernandes Segatto (CEO), Domingos Sávio Oriente Franciulli (Comercial) e Marcelo Antonio Soares (Operações) e a gerente de Relacionamento com Associados e PAs, Karina Andriazi Cavazane.

Brasil tem bons exemplos no campo

Karina Andriazi, na abertura do seminário, ressaltou o sucesso da Jornada SOMAR Forças, que, nos seus primeiros 21 episódios, recebeu um público superior a 30 mil pessoas. Reforçou a importância do cooperativismo e, na sequência, lembrou que o conceito de economia circular nasceu nos anos 1970, como resultado das discussões travadas no meio acadêmico sobre a crescente produção de resíduos sólidos nos centros urbanos. “Só para dar uma ideia”, disse, “o Brasil produz hoje 380 quilos de resíduos sólidos por habitante por ano”. Acrescentou que parte desses resíduos já é reciclada, “mas somente com a mobilização de toda a sociedade esse problema de nossas cidades será resolvido”. Concluiu afirmando que, em contrapartida, o meio rural tem demonstrado maior capacidade de resolver essa equação. Segundo disse, o trabalho do InPEV – Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias de defensivos agrícolas, que processa 94% das embalagens primárias (as que têm contato direto com o defensivo). O Brasil é líder mundial nessa área, seguido pela França, com 77%. Citou, por fim, o exemplo das usinas de açúcar e etanol, que tradicionalmente praticam a economia circular: “Após a extração do caldo da cana, aproveitam o bagaço para geração de energia e utilizam a vinhaça como adubo. Mais recentemente, passaram a extrair biogás da vinhaça, que ainda assim é depois utilizada como adubo. É outro exemplo que coloca o Brasil no topo do mundo”.

Marcos Fava Neves reafirmou o conceito de economia circular, que consiste no uso dos resíduos de uma atividade em outra, dentro de um processo produtivo, fazendo com que este se torne um circuito fechado. “Esse tema é febre mundial”, disse, “e está relacionado à questão ambiental e à construção de margens, de fazer mais com menos”. Por outro lado, relembrou que o Brasil vive hoje uma séria crise hídrica, que já está provocando quebras na segunda safra do milho, tendo como reflexo a alta de seus preços. “Os solos de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul são os mais secos dos últimos 30 anos e o nível dos reservatórios é o mais baixo dos últimos sete anos”, afirmou. Complementou: “Estamos em um período complexo e participar de eventos como este nos ajuda a entender um pouco melhor o que está acontecendo”.

Apresentações em resumo

Os depoimentos dos cooperados convidados, relatando as experiências vividas em suas respectivas propriedades, são resumidos a seguir e sua íntegra permanece disponível na gravação do evento no canal da Cooperativa no Youtube.

Luciana Dalmagro

Explicou que escolheu ser produtora rural há 12 anos. Nos negócios da família, lidera a área de avicultura de corte, que produz 3 milhões de aves por ano para fornecimento a uma indústria à qual está integrada. Disse, inicialmente, que seu pai pratica a economia circular tradicionalmente: “Ele ama a tecnologia, mas também faz compras no ferro velho, aproveitando ao máximo recursos que já existem”. A seu ver, o conceito de economia circular, que faz parte do desenvolvimento sustentável, é muito propícia no setor agropecuário e acaba moldando o mindset, ou seja, a forma de pensar das pessoas, que passam a buscar novas soluções o tempo todo.

Relatou que, ao assumir a área de avicultura, deparou-se com o desafio de dar destinação adequada às carcaças das aves que morriam. Durante muito tempo buscou resposta para essa questão, até conhecer um técnico da Embrapa aposentado, que tinha experiência fora do Brasil com resíduos, inclusive em grandes cidades, e o contratou para uma consultoria. A solução que ele desenvolveu foi um biocompostador com 24 m3 de capacidade, que processa 8 toneladas de resíduos por semana e fornece um adubo orgânico para aplicação em outras culturas na propriedade. Com isso, além de solucionar a questão dos resíduos, proporciona economia em fertilizantes.

Luciana Dalmagro ressaltou outro ponto, este relacionado à energia solar: “Será que, quando geramos energia em nossas propriedades, estamos nos encaixando no conceito de economia circular?” A seu ver, a resposta só será completa quando se conseguir garantir o destino dos painéis fotovoltaicos ao final de sua vida útil, e esse, enfatizou, é um desafio que os fornecedores da área devem considerar.

Ao final, salientando que o conceito de economia circular está ficando “cada vez mais coletivo”, citou o exemplo que uma pequena cidade rural da Alemanha, que coleta e trata todo o seu resíduo agropecuário em biodigestores, gerando 100% da energia de que necessita, além de biometano para seus veículos, e ainda vende 30% de energia excedente.

Cláudio Nasser

Dirige a Auma Negócios, grupo empresarial sediado em Patos de Minas, MG, com atuação nas áreas de agricultura, indústria e comércio, ciência, tecnologia e energia. Uma das empresas do grupo é a Auma Energia, criada a partir das pesquisas iniciadas em 1994 em busca de soluções para o aproveitamento dos dejetos gerados pela suinocultura. “Hoje, nossa fazenda é autossuficiente em energia”, disse, e explicou que, por meio de parcerias, a Auma Energia passou a produzir biometano. Este é utilizado nos veículos do grupo e já foi aprovado para uso em um trator movido com esse combustível que a New Hollander enviou da Itália para ser testado na fazenda. Porém, como são necessários tratores pequenos para a cafeicultura, está em desenvolvimento o uso de biometano em máquinas menores. “Nosso sonho”, disse o cooperado, “é não botar o pé para fora da fazenda, não depender absolutamente de nada no setor energético”.

Os biodigestores que processam os dejetos dos suínos também geram resíduos. Estes são reaproveitados em mistura com a palha gerada por outra empresa do grupo, que produz sementes de milho. “Com isso, obtém-se um composto orgânico de alta qualidade, que atende a todas as necessidades de adubação de nosso café”, afirma Cláudio Nasser, acrescentando que esse composto também é aplicado em pastagens: “Com isso, estamos produzindo 10 unidades de animais por hectare só com esse esterco de porco engordando bois”.

Ressaltou que, além de implantar avanços tecnológicos em suas diferentes áreas, mantém em seu quadro de pessoal, grande número de jovens dedicados à inovação, aos quais diz: “Não acorde todos os dias fazendo a mesma coisa, porque o mundo espera mais de nós”. Nesse sentido, o grupo vem desenvolvendo outras linhas de pesquisa in loco, em parceria com órgãos externos, como em café, com a UNESP/Jaboticabal; suínos, com a Universidade de Lavras; e microrganismos de solo, com a Embrapa, utilizando bactérias que esta desenvolveu e lançou recentemente, proporcionando um sensível aumento de tolerância ao stress hídrico.

Finalizou: “Nós pensamos em um Brasil pujante no agro, mas que precisa continuar a se profissionalizar, porque é isso que o mundo vai exigir cada vez mais da gente”.

Diogo Castilho

Membro de família de pecuaristas, contou que, em função do avanço da cultura da cana, migrou para o confinamento de gado de corte há 18 anos. Desenvolve pesquisas desde que se iniciou nessa atividade, fazendo análises dos nutrientes individuais, do pH da água e das fezes de animais a pasto e em confinamento. Adotou inicialmente, para alimentação do gado, uma dieta com alto teor de grãos, mas esta gerou alguns problemas de laminite e acidose subclínica nos animais, além de ter custo era elevado. Começou, então, a redistribuir nos pastos os resíduos de fezes do confinamento. Ele conta que resultados foram positivos: “Hoje, após 18 anos de tratamento, chegamos a ter em todas as áreas de pastagem 3% de matéria orgânica. Como as fezes de confinamento têm pH de 8,5, agem também como corretivo de solo.  Com isso, aumentou a saturação de bases e as pastagens estão todas com pH acima de 6”.  Ele revela que o esterco, depois de compostado, acaba se tornando um adubo com aproximadamente 1,5% de nitrogênio, 1% de fósforo e 1,1% de potássio. Isso permitiu, nesses 18 anos, a elevação do teor de fósforo em alguns pastos de 2 a 5 ppm para cerca de 200.

Tudo isso proporcionou uma expressiva redução de custos. Como resultado, o cooperado abandonou a dieta com alto teor de grãos e passou a utilizar maior quantidade de capim in natura ou silagem de capim como volumoso, cultivando duas variedades principais: estrela africana e mombaça, esta última com produtividade um pouco maior, mas menor produção de proteína por hectare. Com essa mudança, o custo da dieta caiu de 30% a 40%, o teor de fibra aumentou, sanando o problema de acidose e de rejeição de cocho, com impacto positivo no ganho de peso dos animais.

Concluiu: “O excesso de esterco, que a princípio era um problema, virou uma solução para o solo, com produção de biomassa por hectare muito acima da normalidade e custos mais baixos”.

Victor Campanelli

É membro da terceira geração da família que, desde 1982, dirige a Agro Pastoril Paschoal Campanelli S.A., que cultiva 9.200 ha de cana e 3.500 ha de milho, tem 5.000 ha de pastagens e mantém um confinamento com capacidade para terminação de 80 mil cabeças de bovinos por ano. Adicionalmente, criou uma área experimental com capacidade para efetuar pesquisas com 1.900 cabeças.

Nas áreas de cana, a renovação é feita com milho, utilizado nas 600 toneladas diárias de ração consumidas no confinamento, às quais se soma parte da palha da cana, como fonte de fibras.

Como cada animal produz, no ciclo de 130 dias de confinamento, de 1 a 1,2 tonelada de esterco, o grupo construiu uma planta de compostagem que processa até 100 mil toneladas anuais, gerando adubo orgânico utilizado nas lavouras de cana e milho. Isso tem proporcionado aumento no teor de todos os elementos desejáveis no solo. Victor Campanelli acentua: “Como as atividades de confinamento estão crescendo em ritmo superior ao das culturas de cana e milho, há um excedente de esterco. Em consequência, a produção de adubo está se tornando um novo negócio dentro do grupo”. Completa: “O conceito de economia circular faz muito sentido para o bolso”.

Há dois anos, o grupo decidiu investir na implantação de um centro de pesquisa agropecuária, o maior da América Latina, para testar tecnologias em larga escala. O primeiro experimento, encerrado em 2020, buscou verificar o efeito que o sombreamento nos piquetes teria sobre o consumo de água e o ganho de peso dos animais. Há hidrômetros em todas as baias e cochos automatizados para medir o consumo de água e de ração. Respostas obtidas: com essa melhoria no bem-estar animal, houve uma economia de 7 litros de água por boi por dia ao longo do ciclo de 130 dias, o que, extrapolando para as dimensões do confinamento do grupo, seria suficiente para o abastecimento de uma cidade com 400 mil habitantes; além disso, houve um aumento médio de 5,76 kg no peso de carcaça de cada animal confinado.

Diretores opinam

Marcelo Soares relembrou que os critérios ESG de avaliação da sustentabilidade são hoje muito comentados e cobrados em todo o mundo, e enfatizou, dirigindo-se aos palestrantes: “Vocês já fazem isso há muito tempo, o que se traduz no sucesso recorrente da Credicitrus, que é reflexo do que fazem seus cooperados com suas preocupações sociais, com o meio ambiente e a gestão”. Acrescentou que uma prova disso é que hoje a Credicitrus figura entre as 10 organizações com Índice de Basileia mais elevado no mercado financeiro brasileiro. Esse índice mede a relação entre os capitais próprios e os de terceiros e, portanto, a solvência e a solidez da instituição.

Domingos Sávio reforçou que a economia circular possibilita às empresas aumentarem o valor agregado de sua produção por meio do uso prudente e inteligente de matérias-primas e do consumo de energia em todos os estágios da atividade. Fez breves comentários sobre as apresentações feitas e ressaltou que a obtenção de resultados como os mostrados no webinar em geral precisam de planejamento. Nesse sentido, complementou: “Convidamos nossos cooperados, assim como aqueles que não são associados, que procurem nossos postos de atendimento, pois podemos apoiá-los na implantação desses modelos de manejo, que são o futuro”.

Walmir Segatto encerrou o evento lembrando da história construída com a jornada SOMAR Forças, de aprendizado transmitido pelos cooperados participantes, com lições e relatos sempre permeados pela menção implícita ou expressa aos critérios ESG. “Estes”, disse, “significam, em última análise, cuidar das pessoas, cuidar de todos nós”. Complementou: “Vou finalizar com a economia circular da Credicitrus. No ano passado, deixamos R$ 709 milhões nas comunidades nas quais trabalhamos, sendo R$ 209 milhões de sobras e o restante de economia em juros e tarifas de produtos e serviços.  Essa é a responsabilidade das cooperativas: transformar a sociedade”.

Escrito por bzanuto

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