O que esperar do agro em janeiro?

Vamos às reflexões dos fatos e números do agro em dezembro e a lista do que acompanhar em janeiro. Na economia mundial e brasileira novos casos de Covid-19 e suas variantes voltaram a assombrar a economia global. Na Europa, medidas restritivas em diversas nações vêm sendo adotadas devido a novos picos de casos, evidenciados na Alemanha, França, Holanda e outros países do bloco. A retomada econômica pode ser prejudicada em 2022 a depender dos problemas com esta nova variante. Vale mencionar que os europeus foram mais negligentes quanto a vacinação que em nosso país.

Com isso, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revisou sua estimativa de crescimento global de 5,6% para 4,5% em 2022, e espera em 2023 evolução econômica de apenas 3,2%. Além do mais, precisaremos nos adaptar à inflação em patamares mais elevados, pois esta deve crescer de 3,5% em 2021 para 4,2% globalmente no próximo ano.

O Brasil também tem forte impacto inflacionário e o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou mais um aumento de 1,5 ponto percentual na taxa Selic, a qual passa agora a 9,25%. O reajuste tenta controlar a inflação, a qual está projetada em 10,2% para o final deste ano e em 4,7% para 2022. Por sua vez, o crescimento do PIB brasileiro deve fechar o ano em 4,65% e encerrar 2022 em 0,5%, enquanto que para o cambio espera-se R$ 5,59 e R$ 5,55, respectivamente.

No agro mundial e brasileiro o índice da Agência das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) bateu 134,4 pontos no mês de novembro, o que representa uma alta de 1,2% frente a outubro deste ano e de quase 30% em comparação a novembro de 2020. Os cereais puxaram o índice para cima, pois apresentaram evolução de 3,0% no comparativo mensal; lácteos também colaboraram com evolução de 3,4%, além do açúcar que cresceu seu indicador em 1,4%. Inflação nos alimentos preocupa pois agrava o problema da fome mundialmente.

No relatório de dezembro da safra 2022/23, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção global de milho foi revista para cima, em 0,3%, agora estimada em 1.208,7 milhões de t. Apesar da alta, a União Europeia foi o único entre os produtores de relevância que teve alterações; neste mês, a estimativa foi de 70,4 milhões de t (+3,7%), contra 67,9 milhões de t do relatório anterior. As produções de Estados Unidos (382,6 milhões de t), Brasil (118 milhões de t) e Argentina (54,5 milhões de t) foram mantidas em valores iguais ao do último mês. Já os estoques globais foram revistos para cima, de 304,4 (passado) para 305,5 milhões de t (neste), alta de 0,3%. Outro destaque fica para os embarques brasileiros, que devem chegar a 30 milhões de t nesta safra, crescimento de 9,0% em relação ao ciclo passado.

Na soja, o USDA estima as mesmas produções do último mês para os 3 principais países: Brasil com 144,0 milhões de t; EUA com 120,4 milhões de t; e Argentina com 49,5 milhões de t. A grande novidade neste relatório está na oferta na China, que foi reduzida de 19 para 16,4 milhões de t (-13,7%). Com isso, a oferta global total da oleaginosa foi revista para 381,8 milhões de t (contra 384 do último mês). Os estoques também deverão ficar em níveis menores, em 1,7%, estimados agora em 102 milhões de t; 1,8 milhão a menos que novembro.

Em sua atualização mensal sobre a safra de grãos 2021/22, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a produção nacional deverá alcançar 291,1 milhões de t, o que representa um incremento de 15,1% frente à temporada anterior. A área cultivada está avaliada em 72 milhões de ha (+ 4,3%), ou seja, um ganho de 3 milhões de ha. Para a cultura da soja, a qual tem sua área projetada em 40,4 milhões de ha (+ 3,7%), é esperada uma produção recorde de 137,3 milhões de t (+ 4,0%) ou de 5,5 milhões de t a mais. No milho a expectativa é de uma produção total de 117,2 milhões de t (+ 34,6%) com boa recuperação de volume frente aos problemas climáticos enfrentados no ciclo anterior; a área de verão está avaliada em 4,5 milhões de ha (+ 3,7%), os quais devem produzir 29,1 milhões de t (+ 17,6%), enquanto que na safrinha espera-se o cultivo de 15,8 milhões de ha (+ 5,7%) e produção de 86,3 milhões de t (+ 42,0%). Alguns especialistas já contestam os dados referentes ao milho verão, em consequência de um cenário adverso de clima seco no Sul do país. Já o algodão também apresentou uma boa recuperação em área cultivada para 2021/22, chegando a 1,5 milhões de ha (+ 9,1%) e produção de pluma de 3,8 milhões de t (+ 10,6%). Super safra brasileira uma vez se consolidando, pode trazer um pouco de alívio ao cenário de oferta e controlar os preços mundiais.

Já no âmbito das operações, a Conab indica que até a semana de 4 de dezembro, o plantio da soja estava 95,1% concluído no país, frente à 90,2% no mesmo período do ciclo passado. No milho verão, o progresso é de 77,9%; há um ano, estávamos com 75,4%. Já no algodão, o avanço é ainda mais impressionante, com 16,1% das áreas plantadas contra 4,8% na mesma data de 2020/21. Seguimos em ritmo acelerado, na torcida pela continuidade das chuvas e de olho nas condições das lavouras!

As exportações do agronegócio em novembro atingiram um novo recorde para mês, de US$ 8,36 bilhões, crescimento de 6,8% frente a novembro de 2020, segundo dados do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA). Esse montante é resultado de um aumento de preços na ordem de 22,3%, uma vez que para o volume embarcado de produtos houve queda de 12,7%. O complexo soja liderou a pauta de exportação com vendas de US$ 2,09 bilhões (+ 91,7%). O atraso no plantio e colheita no ciclo passado, bem como a produção recorde permitiram maior oferta da oleaginosa neste final de ano. Apenas as vendas do grão totalizaram US$ 1,32 bilhões (+ 150%). Na segunda posição aparece o setor de carnes, o qual foi responsável pela comercialização de US$ 1,30 bilhão, sendo US$ 590,69 milhões (+ 26,2%) da carne de frango, US$ 493,66 milhões da bovina (- 41,5%) e US$ 168,68 milhões da suína (- 16,3%). A bovina em particular ainda sofre as fortes consequências da suspensão de importação por parte da China. A seguir os produtos florestais responderam por US$ 1,25 bilhão (+ 19,3%); o complexo sucroalcooleiro vendeu US$ 991,59 milhões (- 0,8%); e o café US$ 617,72 milhões (- 0,9%).

Por outro lado, as importações do setor totalizaram US$ 1,45 bilhão, evidenciando um crescimento de 10,5%. O milho foi o principal produto adquirido, somando US$ 149,3 milhões (+ 423,4%), diante do cenário de escassez do cereal no mercado doméstico. Mesmo assim, o saldo da balança do setor para o mês ficou em US$ 6,9 bilhões (+ 6,0%). Ao considerarmos os onze primeiros meses do ano, as exportações do agro já totalizam US$ 110,7 bilhões (+ 18,5%), contemplando um novo recorde para a série histórica.

O PIB do agronegócio em 2022 deve crescer a um ritmo menos acelerado, entre 3 a 5%, segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Já para 2021, o estudo conduzido em parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) aponta para uma evolução de 9,37% em comparação em 2020.

O cenário de crise energética no mundo Asiático e Europeu somado à escassez de containers e encarecimento do frete marítimo já vem trazendo reflexos aos preços dos insumos agrícolas. China e Rússia já limitaram a exportação de fertilizantes, o que tem levado à disparada nos preços desses insumos e deterioração das relações de troca. Nos defensivos a conjuntura é parecida, há falta de moléculas no mercado, causando encarecimento nos preços. Tal contexto está gerando apreensão por parte dos agricultores. Muitos deles estão optando por reduzir a compra de fertilizantes para temporada 2022/23 e até rever suas escolhas de culturas.

Apesar das discussões referentes ao cenário de insumos, o ciclo atual não evidenciou problemas com a oferta de fertilizantes. O país importou 36,8 milhões de t, considerando o período de janeiro a novembro, de acordo com dados da Agrinvest Commodities. O principal fornecedor brasileiro foi a Rússia, responsável por 23,5% de tudo que o país adquiriu.

O Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) revisou sua estimativa para safra de laranja do ciclo 2021/22 para o Cinturão Citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro, agora avaliada em 264,14 milhões de caixas, sendo 1,39% inferior ao dado de setembro e 10,21% menor que o projetado em maio. Os principais motivos das quedas estão relacionados a condições climáticas adversas, com chuvas 30% abaixo da média na região, além das geadas de julho que provocaram queda prematura de frutos.

E na crescente temática de sustentabilidade, a Bunge anunciou recentemente seu plano de reduzir em 25% as emissões de gases de efeito estufa até 2030 (comparação com 2020). Como parte das diretrizes para alcançar este resultado, a empresa irá monitorar e restringir o acesso a qualquer suprimento proveniente de áreas de desmatamento. Uma parceria entre a John Deere e a ONG The Nature Conservancy (TNC) vai promover a transformação de áreas agrícolas na região do Vale do Araguaia, no cerrado brasileiro. O projeto, que deve atender 100 propriedades de pequenos e médios produtores, terá como foco os tópicos de governança territorial, transformação sistêmica, segurança hídrica e agricultura regenerativa. A ação tem o propósito de contribuir para a agenda do Brasil de ampliar as áreas com ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) e reduzir as de pastagens degradadas, até 2030.

Para concluir a nossa análise geral do agro, os preços dos principais produtos no fechamento desta coluna eram: a soja para entrega em cooperativa de São Paulo estava em R$ 161/sc e R$ 156/sc para março de 2022, um pequeno aumento. No milho, a cotação atual está em R$ 89,00/sc e a entrega em agosto de 2022 fechou em R$ 72/sc. O algodão fechou em R$ 210/arroba e para junho de 2022 em 186/arroba; e o boi gordo em R$ 306/arroba, praticamente igual ao mês passado.

Os cinco fatos do agro para acompanhar em janeiro são:

  1. O clima e a qualidade das lavouras no hemisfério Sul, principalmente Brasil e Argentina. Desde seca (RS) até excesso de chuva (BA, ES) vem trazendo problemas, acompanhar de perto;
  2. A situação mundial de crise energética (escassez de carvão, preços do petróleo, do gás natural e outros), aumento da incidência do coronavírus na Europa e Asia, acompanhar dia a dia o que acontece na China, Índia e em outros produtores de químicos e fertilizantes para entendermos o que serão os próximos meses. O comportamento de compra, de preços e da oferta de defensivos e fertilizantes;
  3. O comportamento da China em relação às compras do Brasil, com destaque às decisões ligadas à carne bovina e também nos grãos;
  4. A evolução do quadro político e econômico no Brasil e as consequências no câmbio;
  5. Comportamento dos preços do petróleo.

Marcos Fava Neves é Professor Titular dos cursos de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAEASP/FGV em São Paulo. Especialista em  planejamento estratégico do agronegócio.

Acompanhe os vídeos sobre agro no canal da Credicitrus no Youtube.

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